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12 dez 2012

Para entender a vida digital

streaming multimedia screen_iStock

Você não entende o que esse povo vê na internet? Não tem paciência para ler instruções e preencher formulários? Veja o que existe além da sua dificuldade: Vida digital, um manifesto

Uma proposta de discurso para os incompreendidos da rede.

“Somos os pais e os filhos da internet. Acreditamos que ela é tão nossa quanto a ciência, a arte e o dinheiro.

Crescidos na rede e com a rede, estamos à vontade com o aumento exponencial da capacidade de computação, do armazenamento e da transmissão de dados. Para nós a Internet não é um ‘espaço virtual’ em que se ‘surfa’, mas um ambiente invisível, familiar e indispensável, em que vivemos e de que fazemos parte, como ela faz parte de nós.

Nossa experiência com a rede é cada vez mais integrada. Entendemos cada vez menos o significado (ou a relevância) da desconexão. Para nós não faz sentido ficar só, nu, cego, surdo e mudo no deserto da desinformação. Somos codependentes de bases de dados e de Inteligência Artificial e não nos sentimos frágeis ou menores por isso, muito pelo contrário. Acreditamos que confinar, restringir ou ignorar a rede é tão cruel e inútil quanto viver sem penicilina, transporte aéreo, transfusão de sangue ou pasteurização.

Vemos a internet como uma forma de inteligência evolutiva, parte da realidade, máquina ligada para nunca ser desligada. Não nos surpreende que ela tenha se tornado muito maior do que imaginaram seus inventores. Nem nos espantam as transformações que os três bilhões de novos usuários esperados para a próxima década promoverão, tornando tudo o que foi feito até agora uma fração de seu verdadeiro tamanho. Sabemos que tecnologias como tablets e smartphones desaparecerão enquanto a Internet continuará, escapando a qualquer ilusão de controle ou restrição.

Para nós a rede não é uma técnica ou ferramenta, mas uma linguagem, que transcende o verbo e o texto, se mistura com elementos gráficos e conecta algarismos, algoritmos, métricas e dados de satélite. Se parece incompreensível é porque, como língua viva, suas metáforas se sofisticam com o tempo. James Joyce se espantaria com o Finnegans Wake feito a cada Mashup, a cada API.

Permeada pela internet, nossa realidade é composta de várias camadas de informação. Quando nos interessamos por algo não hesitamos em pesquisá-lo, sabendo que encontraremos respostas variadas em lugares diversos. Temos acesso a mais riquezas do que poderiam imaginar os reis no século 19 e não tardará para que as impressoras 3D sejam nossas Cornucópias pessoais.

Aos poucos percebemos que o dinheiro e a escassez começam a ser substituídos por uma Economia Criativa que desmonta teorias econômicas. Baseados em colaboração, formatos abertos e ideias caseiras, transformamos qualquer garagem em espaço de inovação.

Não somos a ‘geração Y’, ‘Millenials’, nem qualquer outro termo com que nos rotulem. Não nos subestime. Não somos definidos por idade, gênero, origem, renda ou escolaridade, rejeitamos a classificação pelos produtos e serviços que usamos. Vocês não gostariam de ser chamados de ‘Geração Viagra’. Nossa identidade cultural está em nossos pares, mesmo que distantes por vários anos de idade ou fusos horários.

Não somos colonizados nem consumistas, muito pelo contrário. A mídia e a publicidade nunca influenciaram tão pouco uma geração quanto a nossa. Reconhecemos a sua importância, mas apenas como mais um veículo. Lutamos por um ambiente sincero e honesto, em que as mensagens sejam claras e diretas. Estamos cansados das gracinhas e falsas promessas dos vendedores e dos ideólogos camuflados.

Somos contrários ao modo de vida atual, em que se trabalha indefinidamente em busca de poder e dinheiro, em constante insegurança. Demandamos uma revisão do sistema de valores, buscamos a independência, o livre-pensar de que tanto se falou nos anos sessenta, mas distante das agremiações, dos partidos políticos, dos sindicatos e dos centros acadêmicos.

Nossa relação com a autoridade mudou. Não temos mais a humildade bovina de nossos pais, impressionados por empregos, salários, títulos, cartões de visitas ou sinais exteriores de patrimônio financeiro. Não cultuamos hierarquias nem admiramos figuras públicas. Queremos acesso direto ao poder e conversa franca com quem resolve. Em uma sociedade em rede dispensamos secretárias, assistentes, protocolos ou agendamentos. Acreditamos em meritocracia, e faremos de tudo para conquistá-la.

Criamos nossas próprias celebridades. E, como nunca as levamos a sério, as esquecemos rapidamente.

Não temos endereços permanentes. Somos nômades como os primeiros hominídeos que ousaram deixar as savanas para conquistar o mundo. Pátria, para nós, está mais para uma identidade cultural do que para um pedaço de terra ou governo. Até mesmo as instituições que vocês consideram intocáveis para nós estão sujeitas a revisão. Cultuamos a transparência e a eficiência, e estamos dispostos a trocar séculos de tradição por algo que nos preste contas enquanto trata adequadamente de nossos problemas de saúde, segurança, educação e finanças, trazendo oportunidades mais ricas, justas e produtivas.

A Wikipédia nos diz que Winston Churchill, ícone político do século passado, acreditava que a Democracia não era perfeita, mas que era a pior forma de governo, descontadas todas as outras que já tinham sido testadas. Acreditamos que chegou a hora de testar um novo sistema. O chamaremos de Anarquia, no sentido positivo, na falta de nome melhor.

Pela primeira vez na história temos dados e registros para conhecer a sociedade a ponto de gerar sistemas verdadeiramente únicos. Somos quantificáveis e qualificáveis de acordo com as pegadas digitais que deixamos. Como sabemos que não é possível se esconder ou competir com bases de dados complexas e referenciadas, demandamos a transparência e propriedade dos nossos registros, já que são nossa identidade e maior riqueza.

Caminhamos para uma nova forma de ciência baseada na inteligência coletiva, maior e mais rica do que o acumulado da história, em que redes anônimas valem mais do que Einsteins e Newtons, e que podem recriá-los espontaneamente em Uganda, na Malásia ou no Paraguai, conforme a necessidade.

E isso é só o começo. Sabemos que nem tudo que tem um plug é tecnologia e que nem toda tecnologia tem um plug. Aguardamos impacientemente as novas fronteiras da Robótica, da Inteligência artificial, da Biologia Sintética e da Nanotecnologia com propostas que vão além da ficção científica.

Acima de tudo, estamos insatisfeitos com a velocidade das mudanças, queremos novas ideias. Não nos contentamos com tanta desigualdade, tanto consumo, tanto lixo eletrônico. Nem com a substituição do sonho de carros voadores e homens em Marte no ano 2000 por mensagens de 140 caracteres, vídeos de gatos tocando piano e fotos de pratos de comida em falsos polaroids.

Há coisas que não sabemos e outras que talvez jamais saberemos. Mas nunca deixaremos de procurá-las.

Esperamos que vocês nos compreendam e nos acompanhem. Serão sempre bem-vindos.”

Escrito por Luli Radfahrer, professor-doutor de Comunicação Digital da ECA-USP, autor da Encilopédia da Nuvem e do blog www.luli.com.br.

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